13/06/2013

Você sobrevive

     Você sobrevive. Sobrevive aos dias maus, as más escolhas, aos sentimentos contrários, aos amores jogados pela janela. Você sobrevive ante as maiores ondas, porque você precisa continuar. Você continuará errando, pisando nos caminhos nem tão certos, abrindo teu coração a um coração fechado, sorrindo pra quem só se importa com teu silêncio. Você vai prosseguir mesmo quando prosseguir for permanecer,seja sozinho, seja acompanhado, seja nos dias frios, quentes ou chuvosos. Tudo vai passar e o que fica é pra ficar, mereceu ficar, nadou contra todas as marés violentas, boiou apoiado num dos destroços do teu navio e chegou seguro na praia, onde você se fartou, onde você se fortificou, reergueu outro barco e se dispôs a novamente enfrentar o mar. Você enfrenta, perde ou ganha, mas continua. Continua porque tua carne é fraca, mas a tua esperança é forte. A tua espera é vagarosa, confortável ante tua extrema pressa, ante as coisas que você deveria ter feito e não fez.  A tua esperança foge desses dias maus, passageiros, ela é eterna num mundo de coisas tão efêmeras, ela até soa boba e infantil, mesmo não sendo.
     Você sobrevive e enquanto sobrevive precisa aprender a viver, a colher as coisas boas, aprender com as ruins e a ser melhor diante o que te fazem de bem ou mal. Você sobrevive, continua, prossegue e permanece porque tudo vai passar, sempre passa. Você enfrenta e no fim de tudo espera, porque a vida é uma cotidiana espera, de coisas boas, surpreendentes, más e alegres. Você vai sobreviver, acredite em quem sobrevive todos os dias.


06/06/2013

Amélia Carolina


Ela era daquele tipo mesmo, do tipo que sabia a contagem exata dos dias e do porquê de cada sorriso que deixava cair no rosto. Era um pouco desajeitada e todo dia derrubava alguma coisa ou outra das mãos. Mas aquele sorriso, ah aquele sorriso, nunca deixou de sorrir e ficar sempre com cara de boba, aquelas bobas eternamente apaixonadas. Desde o dia que nasceu, o pai jurava de pé junto que ela olhou pra ele e sorriu, ninguém nunca disse que aquilo era mentira, mas todo mundo sabia que de história de pescador ele era mestre. Na certidão o nome de Amélia Carolina, na lembrança, a Amélia dos Sorrisos.
Com 15 anos e alguns dias, nem ela sabia quantos, o pai contador de histórias partiu e fez Amélia chorar. O homem mais lindo da vida dela, o dono de seus sorrisos mais fáceis, pegou firme na mão da menina e disse: "Eu vou, mas não deixa, minha flor mar bunita, o teu sorriso ir junto comigo". Suspirou, fechou os olhos e partiu com o chapéu de palha na cabeça. Ela chorou, claro que chorou, porém não deixou o sorriso ser enterrado junto com o pai naquele chão batido do sertão. Só que no sertão ela não quis mais ficar. Pegou as trouxas dela e da mãe, as jogou em uma mala velha e partiu. Chegou na cidade grande, fez doce, malabarismo com a pensão que recebiam e resolveu estudar pra dar uma vida melhor pra mãe que sofria de pé gelado e coração triste depois que o pai partiu. Consegui, 20 anos na cara e nas mãos o certificado do supletivo. Fez faxina nas Casas Bahia, dormia 4 horas por dia e nas outras horas se colocava a ler, ler e ler. De tanto ler, chegou a vomitar conhecimento em várias lixeiras, passou no vestibular e a mãe contava para as vizinhas do cortiço que a sua Amélia Carolina seria doutora. Na verdade, ela seria jornalista, mas na simplicidade da mãe dela, Amélia seria doutora porque chegava todos os dias em casa carregada de livros, de sonhos e toda a esperança possível, e é claro, sempre sorrindo. Mesmo nos dias que ela tinha vontade de nunca mais levantar daquele colchão jogado no chão da sala, ela lembrava do pai, ela lembrava da vida sofrida do sertão, da saudade e de todo o resto e aquilo fazia ela levantar. E engana-se quem pensa que ela era a melhor aluna da sala, não, ela se formou com luta, com guerra e paz, porém sem as honras para uma aluna excelente porque ela não foi. Na noite da formatura, nada mais a honrou que ver o choro saudoso e alegre estampando os olhos da mãe, que com mãos trêmulas e já cansadas segurou as mãos da filha e disse: "Minha flor mar bunita, agora cê é dotora!". E ambas sentaram e choraram lembrando do homem de suas vidas, lembrando do chão do sertão e vendo que valeu a pena jogar as trouxas naquela mala velha e partir para a cidade grande. E Amélia Carolina, sorria, dançava e tomou um porre para comemorar, chegou em casa e o colchão jogado na sala parecia uma cama king size.
Do cortiço, mãe e filha foram morar em um apartamento alugado. A mãe já com as vistas cansadas, com os pés ainda gelados e com o coração ainda triste, escutava toda a noite os sonhos que cativavam o coração da filha, apoiava a ideia de Amélia se pós-graduar sem entender o que aquelas duas palavras significavam, e sempre dizia: "Amélia, Amélia, e quando eu partir? E quando eu for embora feito o teu pai, o que vai ser do cê? Fiá, flor mar bunita do sertão, trate de encontrar um amor, que aqueça os teus pé frio e dê no teu coração as alegria que o teu finado pai me deu". E Amélia ria, como se escondesse um segredo. E a mãe dela fingia não ver nos olhos dela e na boca uma nova alegria, e antes de dormir acendia uma oração pra que Deus alumiasse os passos da filha, as pós-gadruação e a vida de dotora dela.
"Mãe, vamos nos mudar! Mãe, eu comprei uma casinha pra senhora, com um jardim para a senhora cuidar. Mãe, mãe, eu te amo". Ela não conseguia mais falar, nos olhos lágrimas de alegria, no coração da mãe batidas fortes e gratidão a filha dotora pós-gadruada que fez por ela o que nunca ela imaginou na vida do sertão ter. "E mãe, tem mais uma coisa". A mãe olha pra ela e diz: "É sobre o moço que deixou teu sorriso mais bunito?". E Amélia abraçou a mãe, ela já sabia de tudo, o mundo inteiro sabia porque era muita felicidade dentro do peito, recheada nos olhos e espalhada pelo corpo. Até o padeiro tinha percebido isso, porém achou muita intromissão da parte dele perguntar pra Amélia sobre o motivo notório dos sorrisos dela.
E eis aos interessados como Amélia Carolina conheceu o seu príncipe encantado montado em um fusca azul.
Ela estava no último semestre da faculdade, na correria de tudo, nas pressões do estágio, na ânsia e no medo de talvez não passar na matéria daquele professor rabugento. E ele passou por ela e ela sorriu. E isso se repetiu por várias semanas, ele passava, ela sorria. Ele chegava em casa e não entendia porque ficar preso no sorriso daquela mulher da pele morena, dos olhos castanhos e do cabelo enrolado. Até que um dia ele em um ímpeto de coragem desconhecida pergunta todo atrapalhado: "Oi. Me chamo João, bem acho que não te interessa. Ah, desculpa...desculpa mesmo. Esquece meu nome, por favor, esquece que eu tô falando com você. Ai que idiota como você vai esquecer se eu ainda tô falando...Acho que vou desmaiar". Não é que ele desmaiou. Acordou sob o olhar descontraído de Amélia. "Moça, não me diz que eu desmaiei. ..não é possível, como eu posso ser tão atrapalhado?". "Ai moço, eu não sei. Também sou atrapalhada, bem vindo ao grupo...Ah João, me chamo Amélia, Amélia Carolina". Foi assim. Não que Amélia não tivesse outras histórias, outros amores, outros caras que fizeram ela sorrir, mas como ela mesmo dizia: "João foi aquele cara que quando chegou me fez arrastar um bonde, me fez chegar ao céu em segundos, foi o melhor beijo de boca molhada que chegou nos meus lábios. O João arrebatou meu coração pra uma dimensão que me faz querer amar todos os dias, a todo renascer do sol. O João é a minha poesia escancarada na cara como sorriso. Acho que é isso...".
"Mãe, esse é o João. João essa é a mulher mais maravilhosa do universo, minha mãe, dona Luí, e ouse não chamá-la por outro nome!". Foi assim que João conheceu dona Luí e ela então entendeu que a filha ficaria bem acompanhada e amada, pois já estava chegando a hora de encontrar o marido que nunca deixou de amar e tirar do coração logo aquela tristeza teimosa.
Certo dia, desses dias que nunca são certos, Amélia chega em casa e vê a mãe prostrada na cama, tão branca que chegava a dar frio só de olhar pra ela. Amélia pega o telefone e chama João, sabia que médico nenhum ia resolver aquela partida, a mãe tava partindo pra ficar junto com o pai e ela não queria ficar sozinha no mundo. "Fiá, chora não, é flor bunita, é flor amada. Sei que o Jão vai te amá, vi isso nos olhos dele, vi isso nos teus. Ocês vão passar por coisas ruins, por coisas boas, por dias de seca e por outros de fartura, o que vai ficá é o amor. É sempre o amor que fica. O teu pai foi e ficou o amor dele, ficou o nosso fruto que foi ocê. Não vou conhecer os teus fiós, mas sei que eles serão bunitos como ocês dois. Eu sempre subê que um dia a gente ia ficá longe,a minha tristeza precisa sair do coração, ela não guenta mais. Obrigada pela casinha, por ter se tornado dotora e logo será pós-gadruada. Sei que Deus vai alumiar ocês, pedi isso todos os dias e ele vai cuidar de tudo. Lembra do que o teu pai te disse? Vou repetir antes que meu coração dê um treco. Eu vou, mas não deixa, minha flor mar bunita, o teu sorriso ir junto comigo". E igual ao pai de Amélia, dona Luí suspirou, fechou os olhos e com mãos geladas soltou as mãos da filha. Amélia abraçou forte João, os dois choraram e dona Luí teve sua dor de tristeza curada.
"Meu amor, não me abandona, nunca? Vou sorrir por você, todos os dias. Vou lembrar que o meu sorriso não foi embora junto com a minha mãe porque você segurava a minha mão, porque você me abraçou forte e me disse que estaríamos juntos até o fim"." Não Amélia, você é a flor mar bunita, você é a menina mais encantadora dos meus olhos e estaremos juntos até o fim".
Três meses após a partida de dona Luí, João e Amélia se casaram, uma cerimônia simples, com poucos convidados e com muito amor. Trocaram alianças e dois anos depois chegaram as gêmeas e três anos depois o menino mais atrapalhado que João e Amélia juntos.
Amélia e João foram casados por 27 anos, se amaram desde o primeiro olhar até o último suspiro de Amélia. Foram felizes, foram infelizes, pensaram no divórcio, desistiram quando uma das gêmeas teve uma pneumonia que quase a matou. Foram endividados por uma viagem a Disney. Foram escandalosos com beijos no meio da rua, com discussões infantis em idas ao restaurante. Foram alguns dias cada um dormindo em uma cama. Ela jornalista colunista de um jornal pequeno, ele professor de matemática em uma faculdade particular sem renome. Foram incansáveis amantes um do outro, apesar dos dias de raiva. Como disse dona Luí passaram por dias de seca e fartura, por dias bons e maus, e não é que ela tinha razão, o amor foi o que permaneceu. Compraram uma casa e um apartamento, mas o que ficou foi o amor. Tiraram muitas e muitas fotos juntos, mas o que ficou foi o amor. Viveram e ela morreu, mas o que ficou foi o amor.
Das gêmeas sei que uma está terminando o doutorado em História Antiga na Europa, a outra é dentista que trabalha na África em comunidades carentes e o menino advogado da defensoria pública do Rio de Janeiro.
E você quer saber como Amélia disse adeus?
Era natal e por conta da insistência de Amélia todos estavam lá, as filhas e seus maridos, uma delas estava grávida, o filho e sua namorada. Todos abriram seus presentes, menos Amélia. Então ela pega a taça com champanhe e naquele movimento clichê de querer a atenção de todos começa um discurso: "Boa noite, amores da minha vida. Agradeço os presentes, agradeço em especial a presença de cada um. João, obrigada pelo teu amor. Obrigada por ser o marido mais espetacular do mundo, mesmo quando eu te digo pra não deixar a toalha molhada na cama e você deixa. Em especial hoje eu lembro do dia que minha saudosa mãe partiu e você estava comigo e prometeu me amar até o fim, você foi fiel nessa promessa. Filhas, vocês foram os meus primeiros tesouros, as jóias em dose dupla que ganhei de surpresa. Foi maravilhoso ver o quão maravilhosas vocês se tornaram. Querida Luiza, o bebê que você carrega aí tenho certeza que será coberto de amor e muita sabedoria. Você e o Francisco serão grandes pais. Mariana, logo você e o Mário também terão essa chance majestosa de dar vida a uma criança que será luz na vida de vocês. E meu pequeno, pra sempre pequeno, Marcelo, estou tão feliz pelo caminho que você optou, por todas as tuas escolhas, entre elas, a Gabriela, que eu vejo bem no fundo dos teus olhos que é o amor da tua vida. Gabriela, cuida bem do meu precioso. Sou extremamente feliz por ter vocês na minha vida e sei que esse momento foi preparado por Deus, ele cuidou de cada detalhe, ele ouvi as orações da minha mãe, ele não permitiu que meu sorriso fosse embora junto com meu pai. Quero deixar de presente para vocês o que minha mãe me deixou antes de partir, o conselho de que o amor sempre fica. As coisas vão passar, as estações sempre mudam, as pessoas mudam algumas coisas, os amigos não são eternos, nem nós o somos. Vocês terão momentos de extrema dificuldade, a vida nunca será fácil, ninguém deixa as coisas serem leves e descomplicadas, porém, não esqueçam que o que fica é o amor. Façam tudo pensando  e calculando se no fim, mesmo com tudo desabando, o amor ficará. Cometi os erros que qualquer pessoa está enfadada a cometer, cometi uns mais que outros, porém olhando pra vocês percebo que no fim o que ficou foi o amor...foi bom amar vocês...(respiração ofegante). Eu vou embora, me desculpem...me desculpem...(respiração mais ofegante) mas não deixem o sorriso de vocês irem embora comigo". Suspirou, fechou os olhos e caiu desfalecida ao chão. Os filhos queriam chamar uma ambulância, João disse que realmente aquela era a hora de Amélia, que aquele sentimento de partida foi semelhante ao do dia que Dona Luí foi ao encontro do pai de Amélia. O coração de todos doía e nos lábios dela, mesmo gelada e já sem vida, residia aquele sorriso.

"Meus queridos, sei que vou partir. Talvez não dê tempo de contar tudo que precisarei contar, por isso, deixei essa carta. Há 4 meses fui diagnosticada com uma doença muito rara em meus pulmões que foi descoberta naqueles meus exames de rotina de todos os anos. Meu médico me orientou que haveria tratamento, porém, um tratamento agressivo que poderia me custar dias bons e alegres com o meu João, talvez dias e dias internada em um hospital sem poder ligar para vocês, crianças. Com ou sem tratamento, a doença avançaria e me devastaria. Não vou dizer quem foi meu médico, esse foi o sigilo que exigi dele. Procurei vários médicos e todos davam a mesma notícia. Não quis que vocês sofressem com isso, lembram que meu apelido na infância era Amélia dos Sorrisos? Decidi que permaneceria assim. Me submeti apenas a um tratamento paliativo, fazendo uso de medicação para aliviar a dor e falta de ar. Minhas desculpas que a falta de ar eram por uma anemia mal tratada dariam certo, porque sabia que teria poucos meses de vida e até gerar suspeitas em vocês eu já teria ido embora. Não sei como explicar, mas sei que meus dias se findaram.Posso ter mentido, mas pequenas mentirinhas de amor, se forem para não machucar, acho que valem a pena. Só quero, por fim, deixar a vocês meu amor. Deixo escrito nas minhas palavras meu amor e na esperança de ter deixado em suas lembranças memórias e recordações de amor. 
Amo vocês. Com amor, mamãe"

E assim Amélia, nasceu, viveu, sofreu, errou, aprendeu, amou e hoje fica na agradável memória de quem a conheceu, de quem teve o privilégio de entender o porque ela era chamada de Amélia Carolina, a Amélia dos Sorrisos.

02/06/2013

A metade que passou


    Chegamos na metade do ano. Meu Deus, já chegamos na metade do ano! Eu lembro que não prometi nada para esse 2013, sim, deu meia noite e apenas abracei meu pai, bebi uma coisa azeda e comi uma caixa de bis. Sem aquela utopia boba de que os ponteiros do relógio fossem mágicos e tudo seria melhor. E agora chegamos na metade do ano e tanta coisa eu fiz pela metade e ainda não terminei. Quantas coisas pareciam inteiras e nem chegaram na metade quando chegaram ao fim. Ah 2013, você está sendo cômico, estranho, mutante, intenso e ainda tá na metade! Não sei se tenho medo do que está por vir, sinceramente, queria dormir e acordar em dezembro, mas aí eu penso, quantas são as circunstâncias que ainda preciso viver, que ainda são necessárias nesses outros 6 meses que me faltam para novamente dar um abraço no meu pai, no meu irmão, beber uma bebida azeda e comer outra caixa de bis?
      Seja bem vinda outra metade, não vamos brindar nada, nem prometer, vamos viver e nos descobrir. Vamos descobrir se algumas dores permanecerão dores ou se serão curadas e atadas, por fim. Vamos descobrir a tentativa de sermos melhores, melhores lembranças, encontros e desencontros casuais. Lembrar e pôr em prática o que a metade que passou deixou de ensinamento, não repetir as mesmas e exatas burrices de todo ano. Vai ser um pouco mais perto do céu e, ao mesmo tempo, perto da Terra? Tomara que assim seja. E mais uma vez seja bem-vinda a metade que ainda não passou, só não gosto muito de você quando eu lembro que você chega e um pouco depois da tua chegada, o outono vai embora.


31/05/2013

As músicas do John Mayer não inspiram mais

Acho que estou farta de falar só da guerra do nosso dia-a-dia, só da tragédia instaurada muito antes da gente nascer e que não vai terminar depois que a gente termine. Estou farta de ver gente vazia com a boca tão cheia de asneiras e pedidos mentirosos de perdão. Cansei, por algum tempo que desconheço a contagem, de não falar do amor, das pessoas e das coisas boas dos dias. Quero falar sobre o amor, sobre como amar, sobre os erros do amor, projetar sobre seus acertos e esquecer um pouco das bombas que explodem e destroçam. Mesmo que as músicas do John Mayer não inspirem como antes.
   
   

30/05/2013

Carta

Encontre alguém para quem você possa dizer isso:


Hoje, muito mais, muito mesmo, que antes estou pronta para te encontrar. Te encontrar sem mesmo talvez nunca ter conversado mais que algumas horas com você. Sem talvez não saber o nome dos teus pais e se tem irmãos.Sem talvez não reconhecer por agora teu extremo valor na contagem dos dias. Já não sei, já errei tanto que tenho medo de não te acertar. Mesmo que eu cogite que você está vindo na hora atrasada, mesmo que eu cogite que você nunca chegue. Te entregar todo o tipo de amor que sinto, todo o tipo de bom sentimento que dá pra depositar em um coração aberto. Sem aquela velha ilusão que o amor só garante dias bons, porém sem esquecer, que graças a ele a gente pode passar pelos grandes desertos ou nas mínimas tempestades, juntos. Juntos em conjunto de dois que são um. Acreditar, por mais bobo que seja, que todos os erros foram justificativas furadas para responderem a forma que um não encaixa exato no outro e que ninguém foi feito exatamente pra ninguém, mas que a gente pode querer seguir um mesmo caminho. Que a tua entrada na história seja como um violão que sozinho começa uma música e depois os outros instrumentos começam a tocar, e um pouco depois a tua voz rompa o solo instrumental. Sei que vou te aceitar junto com teus segredos, junto com o limite de se permitir a sentir saudades, aquele limite bom de não estar sempre e a todo momento juntos. E que as outras lembranças sejam apenas outras lembranças. Suficientemente descobrir que há sempre uma história para ser lida e escrita todos os dias. Uma história que a gente escreve e não apaga, que aquece os dias frios e refresca os quentes. Uma história na qual cabe os erros, os acertos, os pedidos atrapalhados de perdão, os atrasos para chegar em uma festa. Dias de chuva e beijos molhados. Dias com as distrações mais infantis, com apelidos ditos ao pé do ouvido, com tardes perdidas dentro de uma livraria abrindo e lendo apenas trechos de livros ridículos. Uma vida sedentária na correria dos nossos dias apertados.Você não pode ser atrapalhado em demasia, já bastam as minhas topadas do dedo mindinho no canto da estante da sala. Ok, se você também tem histórico de topadas do dedo mindinho, a gente ri junto das nossas pequenas desgraças cotidianas. 
Escutar músicas de amor e lembrar de você. Ver filmes românticos e não encontrar lá o nosso roteiro. Ler histórias de amor e não encontrar lá a nossa. Mas olhar no coração e descobrir teu nome escondido nele. 
Ser doce e azedo. Ser triste e alegre. Ser cheio e vazio. Ser completo e incompleto. Encher o tanque e esvaziá-lo em passeios por ruas desertas, em corridas no mercado, em maratonas de filmes embaixo das cobertas. Ser do tipo a primeira pessoa que vem no teu pensamento e a última antes de fechar os olhos para dormir. Te chamar saudade e te encontrar em um abraço. Viver e morrer todos os dias de amor. Cuidar e proteger. Amar e respeitar. Brigar e pedir paz. Dar o nó na gravata, borrar o batom antes da festa começar. Contar moedas e juntar dinheiro para fazer brigadeiro. E nunca, nunca esquecer de viver tudo que temos para viver, tudo que temos para contar e ser tudo infinito enquanto dure, e se for durar por toda a vida, que seja com você. 

24/07/2012

Move


Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Apostolo Paulo, carta aos Romanos 7:24

Em menos de um ano já mudei umas quatro vezes meu cabelo e já prometi incontáveis vezes de parar de tanta teoria e crítica e mais ação, e no fim das contas o que mais eu mudei foi o cabelo mesmo. Não posso negar que algumas coisas mudaram, muitas visões foram quebradas, muita escama saiu dos olhos, muito conceito se conceituou diferente. Mas eu não parei de falar, falar, criticar, julgar, falar, não fazer, não agir, falar, dar murro em ponta de faca, falar, teorizar. E só, ponto final e fim de papo, quem dera que fosse o fim do papo e viesse enfim o agir.
Já recebi demais, estou entulhada de tanta informação, que no fim das contas é mais inutilidade porque eu não as coloco em prática. Chega desse meu discurso revoltado sem revolução. Sem entrega. Não me aguento mais, estou insuportável. Minhas frases amontados de meras ordens não cumpridas por mim mesma.
Quero ir, quero dizer, quero fazer, quero amar, quero mudar, quero revolucionar. Digo que me sinto presa a quatro paredes, mas não me liberto delas, porque o calor delas pode me irritar, porém, é mais comodo o calor que elas me dão nos dias frios, é mais comodo eu permanecer e não me movimentar. É bem mais agradável permanecer só falando, só criando teoria.
Nos momentos antes de dormir eu crio mais de mil e umas saídas do meu comodismo, até acredito que no raiar do novo dia eu acorde mais cedo, acorde sendo uma pessoa melhor. Eu até digo que vou me colocar mais de joelhos no chão. Mas, no fundo, eu sei que isso não passará de mais um teoria que sem prática nunca vai dar certo. Enquanto as minhas vontades me controlarem eu nunca sairei da minha zona de sossego, do aconchego de apenas quem me aceita, de quem não precisa necessariamente ter sua vida mudada por minhas ações.
Aí eu paro e penso, digo com o peito cheio que sou cristã, que Cristo mudou o meu viver. Como é egoísta e tão sem Cristo a maioria dos meus discursos. Cristo de maneira nenhuma quer seguidores cheios de si e vazios dele. Ele quer ensinar a forma que ele amou, a forma que ele agiu, o cumprimento do seu Reino em todas as áreas, em todos os níveis, em toda língua, povo e nação. E o cumprimento de seu reino de justiça, igualdade e poder cabe a mim. Cabe a quem se dispõe.
Acho que cheguei no fim do meu poço de insatisfações, e ao chegar nesse lugar horrendo vi que se eu não tomar uma direção vou ficar suja dessa imundice, vou me contaminar, e o pior de tudo, vou me conformar com esse mundo, com as suas atrocidades e verdades cada vez mais distorcidas.
Se a realidade para mim se tornou um problema de dimensões além das que os olhos conseguem ver, a sua mudança deve começar em mim, depois afetar outras vidas, mudar sentidos e mostrar a graça, somente a graça! O morrer no corpo e o viver no espírito.O morrer das minhas vontades passageiras e o persistir do eterno, daquilo que não conforma, mas que muda. Ponto final? De maneira nenhuma...







06/04/2012

Único

puts, eu erro, eu peco, eu chuto, eu esqueço, eu sou insensível, grosseira, chantagista, egoísta. Sou isso e mais um pouco. Não anulo minhas qualidades, mas as desmereço. Entendi que eu não sou e nunca serei melhor que qualquer pessoa, estou submersa nessa realidade, nessa realidade que me coloca em um mesmo de nível de todos. Democraticamente somos todos errados, com sentidos opostos. Uma mesma composição inicial, carbono, nitrogênio e tantos outros átomos iguais e ainda querem dizer que não somos iguais. E na mesma essência, um mesmo barro, um mesmo criador que insistentemente não se cansa em dizer que há um mesmo salvador, o que significa que há apenas um salvador que é um caminho, um único amor, uma única verdade com múltiplas maneiras de provar que é real.